LEONORA FINK
1975 - CURSO TÉCNICO DE DESENHO DE COMUNICAÇÃO
 
apostila de 75, para o segundo ano do curso técnico de desenho de comunicação

matéria- semiologia II
professor Renato Vieira Filho

Paul Klee

“Eu tenho sentimento de que cedo ou tarde eu chegarei a qualquer coisa que valerá a pena, mas devo começar não por hipóteses, mas por casos precisos, quão pequenos forem. Para mim, é importante que comece por coisas muito pequenas...” “...eu farei qualquer coisa muito modesta, criarei um pequeno motivo formal, que meu lápis será capaz de dominar sem nenhuma técnica.”
Klee conhece em 1911 Kandinsky, Jawlensky e Franz Marc – ele sentia que Kandinsky e Marc trabalhavam na mesma direção; por essa época esses dois artistas publicavam um periódico (Der Blaue Reiter), e procuravam organizar exposições do grupo do mesmo nome – Klee juntou-se a eles e contribuiu modestamente às atividades desse grupo.
Em 1914 Klee faz uma viagem à Tunísia em companhia de Macke. A viagem dura apenas 17 dias, mas a experiência da luz e da cor, “a essência concentrada das Mil e Uma Noites” penetra profundamente na consciência de Klee: “A cor apoderou-se de mim, já não preciso persegui-la. Eu sei que ela está em mim para sempre. Tal é a significação deste momento abençoado. Eu e a cor não somos mais que um. Eu sou pintor”.
A guerra estoura neste mesmo ano e Macke foi uma de suas primeiras vítimas: morreu em 16 de agosto e Klee foi profundamente afetado. No começo de 1915 ele escrevia: “Quanto mais horrível torna-se o mundo (como acontece neste momento) mais abstrata a arte se torna; enquanto que um mundo em paz produz uma arte realista. “Um ano mais tarde Franz Marc é morto. O sacrifício inútil de seus dois amigos parece persegui-lo até o fim da sua vida: na sua obra a morte nunca estará muito longe.
Em novembro de 1920, Walter Gropius convida Klee a ensinar na Bauhaus. Esta experiência (de 1920 a 1931) obriga Klee a formular para seus alunos os princípios de sua arte, que são os princípios fundamentais de toda arte moderna. Um dos seus aforismos representa a linha moderna: “L’ art ne reproduit pás ce qui est visible; il rend visibli” (A arte não reproduz o visível; ela torna visível).
Quando Klee afirma que a arte não reproduz o visível, mas torna visível o invisível, ele está afirmando o princípio fundamental da Arte Moderna. Não existe um visível já estruturado ou descoberto. O visível foi descoberto e está ainda por se descobrir. Isso significa que a forma de se representar o Real (a realidade) é sempre algo que deve ser inventado, pois a realidade está sempre em mutação e os artistas devem, a todo momento, descobrir novas formas para representar o Real que se transforma. Portanto o visível não é único, e sim múltiplo, no sentido de que a realidade se transforma e nesse transformar-se ela produz “novos visíveis” ou, o que é a mesma coisa, ela sempre se apresenta para o artista como algo essencialmente novo, portanto colocando novos aspectos a serem notados, lidos, apreendidos, analisados e portanto representados visualmente.
Uma outra das suas metáforas mais famosas é aquela na qual ele compara a raiz de uma árvore (a realidade, a natureza) com suas folhagens (a obra de arte) sendo o artista a passagem, o caule. (Ver apêndice). É muito interessante notar o estatuto do artista para Klee – o artista não é um puro servidor mas também não é um senhor, o artista é um puro intermediário: o artista é uma passagem. A Beleza da folhagem não nasce do artista, ela somente passa através dele.
Segundo Klee o processo essencial da criação situa-se sob o nível da consciência. Com relação a isso ele está de acordo com os surrealistas, mas ele recusa sempre aceitar o princípio segundo o qual a obra de arte pode brotar automaticamente do inconsciente: o processo de gestação é complexo, implica em observação, meditação e finalmente domínio técnico dos elementos pictóricos. (Nós sabemos que do surrealismo surgiu o automatismo, isto é, a produção de formas poéticas, pictóricas, etc...Que se dava a partir do inconsciente, sem a mediação da consciência. Klee rechaçava essa posição, afirmando também a importância da reflexão).
PARÁBOLA DA ÁRVORE
Permita-me empregar uma parábola. A parábola da árvore.
Nosso mundo confuso penetrou o artista, e este, nós o admitiremos, penetrou mais ou menos sua vida secreta. De toda maneira, ele aí se reconhece até poder ordenar o fluxo dos acontecimentos e das experiências. Eu compararei esta orientação no seio da natureza e da vida, esta ordenação no seio da multiplicidade com sistema das raízes da árvore.
Dessa região flui até o artista a seiva que o inunda e que se entra pelos olhos. O artista se encontra, pois, na situação do tronco. Sob a impressão dessa corrente que o assalta, encaminha na sua obra os dados que lhe proporcionam sua visão. E como todos podem ver de que maneira se abre em todas as direções, simultaneamente, a folhagem de uma árvore, o mesmo ocorre com a obra.
A ninguém ocorrerá a idéia de exigir de uma árvore que forme sua folhagem segundo o modelo de suas raízes. Todos estamos de acordo em que a copa não pode ser um mero reflexo da base. É evidente que as diferentes funções exercidas em ordens diferentes devem corresponder sérias dessemelhanças.
Mas quer-se proibir ao artista que se afaste do seu modelo, quando as necessidades plásticas estão obrigando-o a fazê-lo. Seus detratores chegaram até a tratá-lo de impotente e falsificador intencional da verdade, quando ele não faz outra coisa, no lugar que lhe foi imposto – o de tronco, que recolhe o que sobe das profundidades e transmiti-lo para mais longe. Nem submisso servidor, nem amo absoluto: simplesmente intermediário. De maneira pois, que o artista ocupa um lugar muito modesto. Não reivindica a beleza da folhagem; esta somente passou por ele.
VIAGEM AO PAÍS DO MELHOR CONHECIMENTO
Desenvolvamos o que se segue: com ajuda de um plano topográfico, façamos uma pequena viagem ao país do Melhor Conhecimento. Desde o ponto morto, propulsão do primeiro ato de mobilidade (linha). Pouco depois, parada para retomar alento (linha quebrada, ou, em caso de paradas repetidas, linha articulada). Olhada para trás, sobre o trajeto recorrido (contra-movimento). Avaliação mental da distancia coberta e da que falta (superfície de linhas). Há um rio que obstaculiza; toma-se um barco (movimento ondulante). Rio acima toparíamos com uma ponte (série de arcos). Na outra margem, encontro um irmão espiritual que também deseja ir aonde está o Melhor Conhecimento. Pela alegria, no princípio somos um (convergência), mas pouco a pouco surgem algumas diferenças (traçado separado de duas linhas). Certa agitação de ambos os lados (expressão, dinamismo e psique da linha).
Atravessamos um campo cultivado (superfície sulcada de linhas) e logo um espesso bosque. A linha se extravia, e subitamente descreve o movimento clássico de um cachorro fugindo. Tampouco eu conservo meu sangue frio; as proximidades de um novo rio estão cobertos de névoa (elemento espacial). Pronto se dissipa. alguns cesteiros voltam em carroças para sua casa (roda). Com eles uma criança dona de cachos maravilhosos. Em seguida escurece, enquanto a temperatura torna-se pesada (elemento espacial). Relâmpago no horizonte (linha em zig-zag). Certo é que atrás de nós ainda brilham as estrelas (viveiro de pontos). Ao fim alcançamos a primeira etapa. Antes de dormirmos tornará a surgir o recordo de tantas coisas, pois nossa pequena viagem deixa impressões.
As linhas mais diversas. Manchas, toques esfumados. Superfícies lisas. Esfumadas. Estriadas. Movimento ondulante. Movimento travado. Articulado. Contramovimento. Traçado. Tecido. Imbricação. Só. Várias vozes. Linha perdendo-se. Retomando vigor (dinamismo).
Regularidade feliz da primeira parte; em seguida as contrariedades, os nervos. Estremecimento contido. Pequenas carícias consoladoras da brisa. Antes da tormenta, assalto de mosquitos. Furor. Morte. A intuição como fio condutor até o crepúsculo e no mais espesso bosque. O relâmpago, ameaçadora invocação de um filete de temperatura. A de uma criança doente...faz muito tempo...

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Polyphoni, 1932
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