LEONORA FINK
1975 - CURSO TÉCNICO DE DESENHO DE COMUNICAÇÃO
 
Masp - Didática 75 iadê

continuação do trabalho de redação criativa para a exposição didática75 iadê, realizada no masp, museu de arte de são paulo, sob a direção de Pietro Maria Bardi


pg 9

morri
como será que tudo aquilo tinha acontecido?
onde eu estava? tudo era tão tétrico e cinzento ao meu redor...
eu podia ver todos, eu podia falar, eu
morri eu estou aqui ninguém me escuta?
de nada adiantava gritar e chorar, pois
Já não havia mais lágrimas...
então pude me ver, que estranha era aquela
situação, eu parecia estar viva, mas no entanto...
morri para quem falava; morri para quem chorava; morri para o cinzento tétrico que me rodeava.


gisele de campos fessel, 20 anos, 1º ano tb


pg 10

a vida é isso:
é ver uma criança sorrir é nascer com o sol
é a incrível vontade de sair com o vento, de
explodir com a bomba, de crescer com as flores.
viver é gritar alto, bem alto para o mundo
lhe ouvir
é ouvir um som
é vibrar de alegria ao ver seus amigos nascer.
inexistente, eletrizante, inacreditável.
saber da vida é gritar baixinho, até não escutar mais nada.
é se envolver no tempo, prender-se nas horas
e se descobrir. descobrir cada minutinho dentro de si mesmo
a vida é a coisa mais maravilhosa, que muito.
gente não sabe aproveitar.
a vida é uma explosão que nasce dentro de cada
um, ao pasSo dos acontecimentos
a vida é deus. é você saber vê-Io e perceber
a sua chegada.
é deus em você e
é você em deus
é o nascimento morrendo.
é a morte nascendo.

vera maria de sá moreira rocha, 16 anos, 1º ano ma.


pg 11

ele
é noite. novamente noite. e sobre aquele quarto
de janela e luz vermelha, cai novamente a névoa seca da solidão
de mais um fim de tarde sombria.
ele novamente senta numa cadeira de silêncio on
de repousa seu sonho...
às vezes chora, sem esperança que o amanha nasça
para ele.
mas ele sempre nasce. sempre, em vez de fim,
começa a atividade da luz, da janela, do quarto. sempre.
com a alma alagada de recordações, pensa no que
não fez.
pensa, em sua tristeza doentia, nos dias
não comeu, nas noites em que não dormiu, nas mulheres que
que
não
amou.
pensa em tudo o que não fez nascer, e em
que deixou morrer.
tudo
e ele está ali, a sentir a luz cada vez
fraca, e com o olhar fixo na esperança, deixa-se ficar.
mais

yone de carvalho, 15 anos, 1º ano ta


pg 12

vida de encenação
em tudo que amamos, sentimos ou esperamos, há,
por pouco que seja, algo que não seja verdadeiro. assim como
um semi-deus, entre a terra e os céus, que num duplo fado lhe
deve tocar um sorriso no amor e na esperança,
por onde passa.
desengana-nos
dura um breve momento. mais breve que o pensamento.
como a encenação, a alegria é tristeza desmascarada. e
o mesmo poço que dá nascimento ao riso, foi muitas vezes preenchido.
por lágrimas.
vida de encenação é do dia de hoje, ai que mal
Soa, sombra que foge, nuvem que voa.
não pense que essas horas são flores, que não
pendem, não morrem no chão. pois não ha disfarce capaz de encobrir
o amor, por muito tempo, onde ele existe, nem capaz de
fingi-lo onde ele não existe.
da mesma forma que ele o coroa, assim o crucifica.
pois o pensamento é uma ave do espaço que, numa
de palavras, pode abrir suas asas, mas não pode voar...
gaiola

scarleth yone ohara, 16 anos, 1º ano nb


pg 13

quem és tu ?
que vives sempre os passos repetidos,
sem luz na tua vida,
vida deserta, de rotina...
transformador do mundo,
desnorteado, sem um ideal,
com lágrimas e risos falsos,
uma pessoa dividida entre a vida e o inferno.
um eu perdido,
um sonho irreal,
um ator sem platéia,
embaralhado no espaço,
homem de argila, com vontade só de partir.
perdido, percorrendo um fio invisível,
percorrendo sua própria perdição.
modelo do ódio, coração de pedra.
não é segredo o tempo te apaga dia a dia,
no fim de cada rua, de cada esquina.
venha cá, e diga quem és ?
que não olhas no rosto inocente de uma criança,
que não respiras o perfume de uma rosa,
que não dás graças por um novo dia,
que não sentes o calor do sol, o brilho de uma estrela.
não, não me digas quem és tu,
que destruiu tua própria arte de vida...

maria beatriz chimenti, 18 anos, 1º ano me


pg 14

quem é você
quem é você?
eu ?
sou ser errante
corpo ambulante
mente sem rumo
imagem muda
imagem desnuda
imagem morta
quem é você?
sou linha torta
espaço vazio
tempo frio
objeto
objeto
objeto
inútil
fútil
abjeto
quem é você?
sou cena gasta
cena estática
ser não-mutante
quem sou eu ?
não sou ninguém.

martha de mello e souza, 16 anos, 1º ano mb



pg 15

o grande detetive escolar de sempre
vejo fumaça no ar, vejo a professora, que levava
uma caneta para alguém, abraçada à lousa.
vejo mãos e pernas de meninas arremessadas no espaço. corpos irreconhecíveis transitam, gritam e se libertam
num tal livro criatividade.
vejo fumaça no ar, vejo chuva de fumaça no ar. o
ambiente leve, o ar pesado, carregado, ou será que troquei?
vejo gente, vejo loucos ainda agarrados aos livros,
que pensam ser a salvação.
ó amigos, a classe é realmente um lugar de estudo
ou um antro de libertos e descontraídos jovens loucos?
chove agitação sobre os cordeiros de deus.
e há diretores míopes que ainda pensam que é aula.

marina r. de moraes, 14 anos, 1º ano mc


pg 16

cigana.
cintila, joga, empolga e furta cor e dinheiro.
dos lugares, milhares, montanhas, cabanas, cabines...
cachecol no pescoço, no almoço, no cascalho.
seu baralho, um barulho... um embrulho, translúcido...
arco-íris nos olhares, no passado-atravessado,
atraído, uma surpresa, sem certeza
das viagens, das passagens,
contrabandos perfumados, com sabores perfuma--
dos... nas montagens, as imagens...
ao trançar, ao mechar
os colares, as miçangas cor-de-amora,
os cabelos, as cortinas
nas amigas, os amores.

glória kairala, 20 anos, 1º ano nb



pg 17

ninguém é de ninguém
um tudo do tudo,
um tudo do nada,
seria um tudo do pouco
um pouco de uma amada.
a amada fervente,
a amada que ama,
a amada que sente
quando outra te chama.
uma amada artificial
é aquela que faz o amor,
a amada real
é aquela que sente a dor.
uma mulher vazia
para outra, é um horror
se essa mulher não sabia,
ela tem muito valor.
um valor que eu dou
um valor que eu gostaria de ter,
um valor que muita mulher adotou,
por medo de tudo perder.
mas ela é o que é,
e muitas outras a invejam,
e do tudo que ela deixou
um pouco do tudo elas desejam.
e no pouco desse mundo,
não me resta um vintém,
porque no fim desse tudo
ninguém é de ninguém.

elizabeth maria araújo, 17 anos, 1º ano me



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pg 15 marina r. de moraes
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pg 16 glória kairala
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